Quando foi informado por seu advogado sobre a proposta de trégua oferecida pelo Comando Vermelho (CV), Reinaldo Teixeira dos Santos, o Funchal, integrante da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), afirmou ser a favor das tratativas, mas se mostrou preocupado. “Sabemos o quanto isso é complexo no contexto geral, porque temos que respeitar as regionalidades e a opinião de todos”, disse Funchal a seu defensor no parlatório da Penitenciária Federal de Brasília em janeiro, como mostra relatório da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) obtido pelo GLOBO. Dito e feito. O armistício sacramentado semanas depois pelos chefes das duas facções não durou muito: foram justamente as “regionalidades” citadas por Funchal que, em apenas dois meses, levaram ao fim do acordo de paz. Desde o início da semana, “salves” — como são chamados os comunicados do crime com orientações aos comparsas — contendo declarações mútuas de guerra passaram a ser interceptados por investigadores.
O principal motivo para a ruptura, segundo autoridades, são rixas locais que inviabilizaram o acordo costurado dentro das cadeias. Anunciado em um “salve” assinado por ambas as facções em 25 de fevereiro, o cessar-fogo não chegou às ruas de forma homogênea nem simultânea pelo país. Em estados como Mato Grosso do Sul e Acre, por exemplo, o tratado de paz teve reflexos claros na segurança pública. Já em outros, como Mato Grosso, Ceará e Bahia, a base das facções optou, desde o início, pelo prosseguimento da guerra.
Para o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, o rompimento se deve principalmente à dificuldade da implementação da trégua em quadrilhas com perfis organizacionais tão diferentes. O PCC tem hierarquia clara, estrutura piramidal rígida e uma cúpula que toma as decisões a serem seguidas por todos os membros — a desobediência pode ser punida até mesmo com expulsão e morte. Já o CV atua em um esquema semelhante ao de franquias nos diferentes estados, com lideranças regionais que possuem autonomia suficiente para não acatar o acordado pelos chefões do Rio.
— Em suma, interesses territoriais de disputa por tráfico levaram a esse rompimento. Ninguém quer abrir mão do seu espaço — afirma o promotor, que combate o PCC há duas décadas e é jurado de morte pela facção.